Arquivo da Categoria ‘Sustentabilidade’

O EXEMPLO QUE VEM DE LUIS GOMES

segunda-feira, 1 de março de 2010

Por Franklin Jorge

Luis Gomes, no alto da serra de mesmo nome, tem uma história quase secreta que vem sendo aos poucos revelada, graças à abnegação e persistência de um grupo de jovens liderados por Luciano Pinheiro, que é a alma e o espírito de uma instituição inspirada pelo padre Pedro Lapo, redentorista atualmente em Areia Branca e Serra do Mel, depois de viver vários anos na periferia do Recife. Sua passagem pela cidade, nos anos noventa do século passado, resultou em lições e prática de vida para muitos, como o próprio Luciano, que começavam então essa travessia.

Tendo aprendido a lição, Luciano tornou-se o líder de um grupo que está mudando a história de Luis Gomes, através de ações que fortalecem a auto-estima da população e lança as sementes de uma nova visão do mundo, construída através da educação e da cultura, de que o “Centro Cultural Escravo Jacó” é o fruto mais recente de uma árvore que se enraíza solidamente, crescendo para o alto e para os lados, oferecendo sombra e alimento para a fome de saber de todos os que buscam através de uma pratica cultural a verdade e a vida.

Instalado num espaço construído para ser uma delegacia, na rua que dá acesso à cidade, uma encantadora cidade com ares de vila, luminosa e fresca, homenageia o escravo que acompanhava Luis Gomes, quando a serra foi descoberta, em fins do século dezoito. A escolha do nome, mais que uma homenagem convencional, exprime toda uma filosofia de trabalho e de vida – o respeito pelos valores permanentes de uma cultura não imposta, autêntica e fecundante, construída por gerações e gerações de luisgomenses.

Poucas cidades do Rio Grande do Norte podem orgulhar-se de ter uma casa como esta. Um centro de cultura construído pela abnegação e mantido pela perseverança de alguns jovens capazes de enxergar o futuro com clareza, através de um voluntariado que nos enche de orgulho e satisfação, como testemunho de que nem tudo está perdido e ainda há lugar neste mundo para a esperança, o bem mais precioso num mundo que menospreza o idealismo e a virtude do desprendimento.

Visitando recentemente esse “Centro Cultural Escravo Jacó”, pude apreciar mais uma vez o registro de toda a riqueza da história de Luis Gomes, que continuaria no anonimato não fosse o trabalho do Grupo Mutirão, criador e mantenedor de um projeto de inclusão digital, de uma rádio comunitária, de uma pequena e sortida biblioteca e, agora, de um museu que reúne e preserva costumes e história do município que faz fronteira com o estado da Paraíba.

Prestam esses jovens idealistas um grande serviço não apenas ao município de Luis Gomes, mas ao futuro mesmo de sua terra e de sua gente.

O VERDE AMARELOU EM NATAL

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Por Franklin jorge

 

Concedo que o ruim, de escrevermos uma crônica semanal, é que às vezes somos atropelados pelos fatos.

 

Foi o que me aconteceu no último domingo, ao escrever no Novo Jornal sobre o secretário de Meio Ambiente e Urbanismo e os espigões de Ponta Negra, uma polemica que fez a prefeita Micarla de Sousa recuar do seu vil propósito de agachar-se diante de especuladores em detrimento da coletividade e de Natal, uma cidade que tem sido escorchada pelo apetite de políticos e gestores que só pensam somente em se “arrumar”.

 

É verdade que a licença permitia a construção de um espigão de 19 andares em Ponta Negra, mas, apesar da cassação da mesma pela prefeita – medida adotada in extremis em decorrencia da pressão da opinião pública -, persiste o fato que delata o despreparo do secretário de Meio Ambiente e Urbanismo, Kalazans Bezerra, que tomou decisões unilateralmente, sem discutir a questão com a sociedade. Seu pedido de desculpas não desfaz o erro.

 

Agora, depois desse imbróglio, vem Kalazans prometendo plantar, em cinco anos, 800 mil árvores pelas ruas de Natal. Uma promessa, em tudo, inverossímel. Kalazans esquece que dos quatro anos de mandato de Micarla, um já se passou em brancas nuvens, sem nenhuma produção relevante em qualquer área administrativa, e, em especial, no meio ambiente, uma das bandeiras eleitorais da prefeita que se acha mais perdida do que cego em meio a tiroteio.

 

Kalazans, não resta dúvida, é audacioso. Melhor dizendo, temerário, pois somente um especulador teria a coragem de fazer semelhante promessa, após um ano inteiro de inércia e dessa tremenda trapalhada de Ponta Negra. Ora, 800 mil árvores é um número tão absurdo quanto as 50 obras prometidas pela governadora Wilma de Faria ao apagar das luzes do seu governo que extertora há sete anos, ao deus-dará, sem lenço nem documento, ao embalo de pagodes e trios elétricos.

 

Kalazans seria mais convincente se pedisse o boné e se recolhesse à sua mediocridade, arrastando atrás de si todo essa cauda inútil e aparatosa, o COMPLAN, um órgão que já deu provas da sua insignificância como instancia consultiva. Considerando-se alguns nomes que o compõe, está na cara que não tem competência para avaliar e propor numa área de tamanha complexidade. E, ressalto aqui o nome do representante do Instituto Histórico e Geográfico, o pesquisador Gutemberg Costa, que, até onde sabemos, não está qualificado para compor esse colegiado que, no caso dos espigões de Ponta Negra, comportou-se como uma “vaquinha de presépio”, concordando docilmente com os caprichos do secretário que o ex-prefeito apodou, não sem algum espírito, de “corretor”…

 

 

 

 

DE COMIDA, CULINÁRIA E ECOLOGIA

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Por Marc Dourojeanni, presidente da Fundação ProNatureza

A delegação de expertos de alto nível contratados pela ONU para assessorar em questões de alimentação ao Governo Revolucionário das Forças Armadas liderado pelo General Velasco Alvarado, do Peru, já estava na sala de reuniões do Ministério da Agricultura.

Todos se levantaram quando entrou o Ministro, o General Valdez Ângulo, no seu uniforme de verão onde apenas brilhavam os três soles que indicavam sua patente de divisionário. Após as convenções de estilo, o chefe da missão, um professor russo, foi convidado a fazer o relatório da sua missão e ele foi grosseiramente contundente: “Senhor Ministro, se os peruanos comessem toda a comida que eles jogam no lixo ninguém, no seu país, passaria fome”.

Naqueles dias dos anos 1970 tive minhas primeiras experiências brasileiras de comida. Começou no confim de Mato Grosso, com a turma suada e cansada chegando a um restaurante de estrada onde todos se sentaram e apenas se preocuparam em pedir cerveja.

Eu, após um dia de estrada poeirenta, apreciei muito a “cerveja estupidamente gelada”, embora tivesse gostado que alguém lembrasse também da comida. Para minha surpresa, a comida chegou… chegou mais e …. chegou ainda mais.

Não lembro quantas travessas tinha acima da mesa, mas eram muitas e pelo menos uns vinte pratos diferentes, muitos de carnes e peixes estavam juntos à nossa disposição.

Eu, apesar da reprovação amargada do russo aos meus concidadãos, jamais tinha visto tanta comida para tão poucos e em conseqüência tanto desperdício. Claro é que, anos mais tarde, no meu longo processo de “brasileirização” vi muitos outros desperdícios, como nos rodízios onde carne de primeira é descartada apenas porque está morna e nos churrascos, porque a gente está bêbada demais para comer o que foi preparado.

Também, freqüentando políticos, vi beber uísque velho de 25 anos (que eu nem sabia que existia) como se fosse água e derrubar os copos cheios apenas pela suspeita de que a temperatura do líquido teria superado a tolerância extravagante desses bebedores tão ricos como vulgares. Mas, e isso é pior, o desperdício de alimentos não se limita aos restaurantes de beira de estradas, aos rodízios ou a festins de políticos.

O desperdício está em todas as partes e, se o mesmo russo que foi ao Peru tivesse tido a oportunidade de visitar o Brasil, especialmente naquela época, ter-se-ia suicidado ou, se mais pragmático, ter-se-ia mudado para cá e trocado a vodka pela cachaça.

Como o desperdício de alimentos tem seu início realmente no campo onde é produzido, nesta ocasião se falará unicamente do desperdício após a compra de comida num mercado ou locais comerciais semelhantes.

Começam como é obvio, com as partes dos alimentos que não se come: cascas ou peles, folhas, pedaços de carne com ossos, nervos ou gorduras; frutas consideradas verdes ou muito maduras, etc.

Não é pouco, especialmente num país que não come batata com casca, folhas de alho porro ou de aipo, que quase não recicla o pão seco e que gosta pouco de coração, fígado, tripas, cérebro, rim, testículos e outras delícias dos corpos animais.

Já sei que muitos dirão, e é verdade, que o país está mudando e que hoje a gente come tudo isso e muito mais. O Brasil de hoje não é o de 30 anos atrás. Não obstante, o desperdício continua.

Jacques Brel, o famoso compositor e cantor belga que fez sucesso na França, com uma canção muito conhecida fazia dizer ao seu satirizado personagem alemão que “a grandeza das nações se mede pela espessura das cascas”.

Irônica ou não (durante a guerra, os soldados alemães eram chamados de Doriphor, um inseto verde que come batatas) a frase contem uma verdade fundamental. O desperdício não faz grandes nações e, nas que já foram ou são grandes, como a Roma Imperial ou os EUA de hoje, ele é um indicador do começo do fim.

Baixando a bola, lembro-me que o único atrito entre a minha mãe, um pouco peruana, mas essencialmente francesa e a minha esposa, bem brasileira, foi ocasionado pelo desperdício, segundo a primeira, de casca de cebola, quando ambas competiam por fazer o “melhor prato” na cozinha. Desse campeonato, esquecendo a cebola, ganhamos todos!

Um hábito latino-americano sempre chocante é observar o que a gente deixa no prato. Sem falar de meninos que têm os olhos maiores que a barriga, uma grande porcentagem dos adultos faz o mesmo. Raro é ver um prato limpo após uma comida.

Os mais pobres aparentemente acham que deixar “algo” no prato é um sinal de bom comportamento ou de elegância na mesa. Lembro-me de ocasiões em que comendo ao lado do Duque de Edimburgo, meu então colega na União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), vi Sua Alteza pegar o pão e passá-lo com os dedos no prato até eliminar a última molécula do molho.

Ele, por anos, foi considerado um modelo de distinção. Mas, nunca vi gente verdadeiramente educada deixar comida no prato, salvo, evidentemente, se estiver estragada. Isso é outra coisa: a pior experiência à mesa da minha vida foi ser convidado a comer um surubim podre e ter que tragá-lo para não ofender o anfitrião.

Os restos no prato vão ao lixo ou aos cachorros, mas os muito mais abundantes restos nas panelas são, em geral, guardados e esquecidos no refrigerador até que, redescobertos com a chegada de novas provisões, já só servem para o lixão.

Na Europa, onde a população aprendeu a sobreviver à fome provocada pelas guerras e pela natureza, quem prepara comida desenha os pratos diários a partir das sobras do dia anterior. Isso é quase uma regra e assim nasceram tantos pratos como arroz ou o macarrão ao forno, famosos patês e pães de carne, bolinhos de arroz ou de purê de batata, pudim de pão e, claro, muitas sopas e saladas.

No Brasil, eles equivalem ao bem conhecido “arroz carreteiro”, mas, a reciclagem não vai muito além, salvo em famílias onde as tradições italianas ou germânicas ainda estão presentes.

No Peru, onde a comida é bem mais escassa que no Brasil, o único prato reciclado comum é o “tacu-tacu”, que frita feijão com arroz do dia anterior. Claro que tendo nascido na França, no começo da última guerra mundial, o tema do valor da comida sempre dominou meu entorno.

Curiosamente, o argumento dos meus pais para que nenhum prato ficasse com comida era esse bem conhecido “pensa nos milhões de meninos chineses que não têm nada para comer” é ainda integramente válido, embora agora deva se referir mais à África e menos à Ásia.

Com as bebidas acontece o mesmo. A mania da cerveja gelada provoca que inúmeras garrafas e latas desses líquidos arrebentem nos congeladores das casas e que litros sejam desperdiçados apenas porque a temperatura nos copos ou nas latas passou do limite aceitável.

Os verdadeiros grandes bebedores de cerveja, na Alemanha, Bélgica ou Inglaterra, a bebem fresca, ou seja, a pouco menos que a temperatura ambiente.

A meninada da classe média e das classes mais privilegiadas, com a inaceitável tolerância dos pais, é campeã no desperdício de refrigerantes em copos ou latas e outros recipientes, para alegria dos fabricantes e vendedores.

Enfim, esbanjamento puro. A moda de gringo, agora espalhada pelo planeta, de beber só água em garrafas de plástico é outra fonte enorme de desperdício. Diversos estudos demonstraram que muitas vezes ela é de pior qualidade que a água da torneira e que após aberta, se contamina rapidamente.

Outra faceta do desperdício é a moda atual de comprar comida sintética para cachorros e gatos no lugar de reciclar, ou seja, cozinhar restos de alimentos. Isso pode ser incômodo num apartamento, mas, hoje até nas fazendas e sítios se alimenta cachorros e gatos com ração industrial que, provavelmente, é muito menos salutar para os bichinhos, além de seu custo exagerado. A gente acredita demais na propaganda dos fabricantes que apregoam que cachorro vive mais feliz com as tripas atoladas pelas monótonas pílulas que deve tragar a diário. Eles, como nós, gostam da comida diversificada.

Também chama a atenção o fato de que algumas plantas sul-americanas, como a mandioca, sejam tão pouco aproveitadas no seu lugar de origem quando, em outras partes do mundo onde foram introduzidas, se usa de forma integral

Encabeça o exemplo a mandioca da que, praticamente ninguém, nem a maior parte dos índios, comem as folhas, que na África são um importante ingrediente da dieta popular, ricas em proteínas e minerais, tudo o que a raiz dessa planta não tem.

Como em outros assuntos, a educação tem um rol determinante para reduzir o desperdício de comida.

Quando no Peru se começou a vender carne de vicunha proveniente de áreas de manejo pertencentes a comunidades camponesas andinas, o esquerdismo dominante orientou sua comercialização aos habitantes pobres com preços extremamente baixos. Mas, os pobres nunca compraram essa carne “de segunda” que, pelo contrário, enchiam os pontos de venda de Mercedes Benz de diplomatas e Cadillacs de ricos.

O mesmo aconteceu com a carne de baleia, prevista para os pobres e não para os ricos, nem para a classe média.

Vicunha e baleia têm carnes de primeiríssima qualidade. Como se diz que Parmentier o fez na França com a batata que é de origem andina, a estratégia para sobrelevar a ignorância e popularizar essas carnes, foi vendê-la aos ricos a um preço elevado. Só assim os pobres começaram a se interessar por elas e, hoje, a carne de alpaca, similar à de vicunha, é apreciada por todos. Baleia não se vende mais no Peru e a produção legal de carne de vicunha é mínima.

Complementando a educação pode se usar o impacto sobre o bolso. Anos atrás, num rodízio popular de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, os comensais fomos surpreendidos pelo anúncio, no cardápio, que os restos não consumidos da carne seriam pesados e cobrados separadamente.

Não pedimos o que não queríamos e não deixamos quase nada. Nestes dias li que os donos dos restaurantes de Hong Kong, também preocupados pelo desperdício, decidiram impor uma multa aos comensais que não comem eficientemente. O impacto no bolso do consumidor faz milagres! Obviamente as famílias desperdiçam muito mais em casa que nos restaurantes. Mas, não sabem medir o seu custo.

Nestes dias em que tudo o que se fala sobre meio ambiente é reduzido a “consumo de energia” vale muito a pena traduzir o tema da alimentação em termos de consumo e mal gasto de energia

Os alimentos consumiram muita energia no campo para ser produzidos e coletados (combustíveis, adubos, pesticidas); para ser processados (lavado, empacotado, refrigerado) e transportados (às vezes sobre milhares de quilômetros); vendidos (passando pelo varejo e pela venda ao atacado, com gastos de energia em refrigeração, iluminação, manuseio, propaganda) e finalmente, para ser transportados e armazenados no domicílio do consumidor final.

Esse último, também, gasta energia (eletricidade, gás de cozinha) ao armazenar, preparar ou cozinhar esses produtos. Nem sei se alguém calculou o que tudo isso significa em termos de energia quando se leva em conta os milhares de milhões de toneladas de alimentos desperdiçados a cada ano, por exemplo, apenas na América do Sul. Mas, possivelmente, esse gasto representa muito mais energia que os danos ocasionados por pragas e pestes nos cultivos e criações.

Então, para concluir: Uma política séria com relação ao efeito estufa não pode pretender reduzir seus impactos unicamente mediante a produção de “energia limpa”, como os governos propugnam. Uma verdadeira política para frear as conseqüências da mudança climática deve ser integral e considerar, inclusive, o desperdício alimentar no nível familiar, propondo medidas para reduzi-lo.

COMO (OU NÃO) SER, EIS A QUESTÃO

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Por Guilherme Ary Plonski,
presidente da Anprotec

A recorrência de questões existenciais na vida dos indivíduos é saudável. Na literatura e nas artes, encontramos a sua expressão mais contundente.

Na genial peça de Shakespeare, Hamlet, príncipe da Dinamarca, inicia com a conhecida formulação ser ou não ser, eis a questão um longo monólogo sobre como lidar com as desventuras que provêm da (deusa romana) Fortuna.

Quando formuladas por pessoas jurídicas, elas são denominadas questões estratégicas. No âmbito privado, é exemplar a discussão sobre qual deve ser a missão de uma organização. Na esfera pública, essas questões enfocam o projeto desejável para o país ou região.

No presente limiar da segunda década do século 21, é oportuno cuidarmos de questão fundamental que vai além do que ser: como ser? Essa nova demanda se manifesta em três predicados essenciais para o avanço das sociedades em direção aos seus objetivos maiores.

O empreendedorismo, em suas variadas formas, é percebido como emblemático da desejável dinâmica de uma organização ou comunidade. A versão mais recente do Global Entrepreneurship Monitor propõe um diamante do desenvolvimento, cujas quatro facetas são o empreendedorismo, a liberdade econômica, a competitividade e o custo de fazer negócios.

Contudo, os resultados nacionais continuam mostrando não ser o empreendedorismo isoladamente capaz de alterar a trajetória de uma sociedade. A proporção da população entre 18 e 64 anos envolvida com empreendedorismo é significativamente menor em nações desenvolvidas. Ilustra o contraste a fração de 46% na Bolívia e de 8% na Alemanha.

Ademais, o empreendedorismo não deve ser valor absoluto, já que em anos recentes houve um crescimento notável de sua presença no crime organizado, terrorismo e o quarto setor. A inovação se consolidou na primeira década deste século como objeto de desejo de organizações e nações. Desde o estudo pioneiro de Robert Solow em 1957, levantamentos sucessivos evidenciam os benefícios tangíveis da inovação para a competitividade de empresas e para a riqueza de regiões e nações.

Entretanto, levantam-se vozes alertando para os riscos da inovação desenfreada. Assim, o jornal Financial Times publicou, em 13/10/2008, artigo sobre a crise financeira com o título “Um sistema oprimido pela inovação”.

A sustentabilidade é o predicado emergente. Em que pese a frustração decorrente dos resultados parcos da reunião de Copenhague, ela tende a se estender mais além dos movimentos sociais, afirmando-se como um dos eixos estruturantes nos setores privado e público. E, à semelhança dos outros dois, será crescentemente entendida de forma abrangente, compreendendo além da ambiental, também as dimensões econômica, social e cultural.

Empreendedorismo, inovação e sustentabilidade são componentes relevantes da resposta ao como ser. A sua efetividade aumenta substancialmente ao promovê-las de forma integrada: empreendedorismo e inovação constituem as duas faces da moeda do desenvolvimento, já a sustentabilidade contribui para que se ganhe e aplique de forma válida.

Como ser ou não ser, eis a solução!

O EXEMPLO QUE VEM DE LUIS GOMES

sábado, 21 de novembro de 2009

 

Por Franklin Jorge

 

Luis Gomes, no alto da serra de mesmo nome, tem uma história quase secreta que vem sendo aos poucos revelada, graças à abnegação e persistência de um grupo de jovens liderados por Luciano Pinheiro, que é a alma e o espírito de uma instituição inspirada pelo padre Pedro Lapo, redentorista atualmente exercendo o seu ministério em Areia Branca e Serra do Mel, nesse velho e depauperado Rio Grande sem sorte, depois de ter vivido durante vários anos na periferia do Recife, cuja passagem pela cidade, nos anos noventa do século passado, resultou em lições e prática de vida para muitos luisgomenses, como o próprio Luciano, que começavam então essa travessia.

 

Tendo aprendido a lição, Luciano tornou-se o líder de um grupo que está mudando a história de Luis Gomes, através de ações que fortalecem a auto-estima da população e lança as sementes de uma nova visão do mundo, construída através da educação e da cultura, de que o “Centro Cultural Escravo Jacó” é o fruto mais recente de uma árvore que se enraíza solidamente, crescendo para o alto e para os lados, oferecendo sombra e alimento para a fome de saber de todos os que buscam através de uma pratica cultural a verdade e a vida.

 

Instalado num espaço construído para ser uma delegacia, na rua que dá acesso à cidade, uma encantadora cidade com ares de vila, luminosa e fresca, homenageia o escravo que acompanhava Luis Gomes, quando a serra foi descoberta, em fins do século dezoito. A escolha do nome, mais que uma homenagem convencional, exprime toda uma filosofia de trabalho e de vida – o respeito pelos valores permanentes de uma cultura não imposta, autêntica e fecundante, construída por gerações e gerações de luisgomenses.

 

Poucas cidades do Rio Grande do Norte podem orgulhar-se de ter uma casa como esta. Um centro de cultura construído pela abnegação e mantido pela perseverança de alguns jovens capazes de enxergar o futuro com clareza, através de um voluntariado que nos enche de orgulho e satisfação, como testemunho de que nem tudo está perdido e ainda há lugar neste mundo para a esperança, o bem mais precioso num mundo que menospreza o idealismo e a virtude do desprendimento.

 

Visitando recentemente esse “Centro Cultural Escravo Jacó”, pude apreciar mais uma vez o registro de toda a riqueza da história de Luis Gomes, que continuaria no anonimato não fosse o trabalho do Grupo Mutirão, criador e mantenedor de um projeto de inclusão digital, de uma rádio comunitária, de uma pequena e sortida biblioteca e, agora, de um museu que reúne e preserva costumes e história do município que faz fronteira com o estado da Paraíba. Prestam esses jovens idealistas um grande serviço não apenas ao município de Luis Gomes, mas ao futuro mesmo de sua terra e de sua gente.

MARINA RECEBE PREMIO EM MONACO

sábado, 10 de outubro de 2009

Do Y! Posts

A senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, receberá hoje, em Mônaco, o prêmio Mudanças Climáticas, oferecido pela Fundação Príncipe Albert II de Mônaco, informou a Agência Brasil. O evento premia pessoas e instituições por sua atuação em defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável.

A senadora, que recentemente se filiou ao Partido Verde (PV) e é a provável pré-candidata à Presidência pelo partido, vai receber 40 mil euros e um troféu. O prêmio considera iniciativas em mudança climática, preservação da biodiversidade, acesso à água e na luta contra a desertificação.

Este é o quinto prêmio que a senadora receberá desde 2008, quando deixou o Ministério do Meio Ambiente por discordar de algumas diretrizes da política ambiental do governo. O mais recente foi em maio deste ano, o Prêmio Sofia 2009, concedido anualmente pela Fundação Sofia a pessoas e organizações que se destacam nas áreas ambientais e de desenvolvimento sustentável. As informações são da Agência Brasil.

CARROS:O DESAFIO É REINVENTAR A MOBILIDADE

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Do site agendasustentavel.com.br

Como as montadoras conseguirão construir veículos ecologicamente corretos de maneira rentável? Saiba mais! Entre todas as ações e os investimentos feitos em auxílio à indústria automotiva – transfusões, transformações e redesigns – uma coisa é constante: o foco deve estar nos carros. A batalha, como todo mundo pode ver, é para descobrir como as montadoras conseguirão construir veículos inteligentes, competitivos e confiáveis, para atender tanto ao pragmatismo quanto a paixão — e de maneira rentável e mais ecológica. Esta é a abordagem básica, certo?

 
 

 

Bem, talvez não. O foco praticamente obsessivo na construção de veículos ecológicos – quase todas as montadoras globais estão agora na “Corrida Maluca” para criar um veículo elétrico ou plug-in híbrido – tolda o maior desafio e a maior oportunidade: reinventar nossos sistemas pessoais de transporte, de maneira que sejam melhores em todos os sentidos – econômico, social e ambientalmente.

Considere: os carros são um fardo. Você tem que comprar, manter, abastecer, estacionar, fazer seguro e uma infinidade de outras despesas. Se você mora numa cidade e não possui uma garagem, os desafios e custos se multiplicam. Além de custosos, os carros ficam ociosos 95% do tempo. E, quando você finalmente utiliza, há o desafio de ficar preso nas ruas e estradas congestionadas.

O que nos dá liberdade não é o automóvel, mas a mobilidade, a capacidade de ir e vir onde e quando quisermos, da maneira mais adequada e acessível para nossas necessidades e estilo. Isso é verdade em todos os pontos sob o aspecto econômico. Com efeito, nas economias emergentes, a mobilidade é uma condição prévia para a sustentabilidade. Quando as pessoas podem circular livremente de cá para lá, são mais capazes de conquistar um emprego, comercializar mercadorias, procurar educação, obter cuidados médicos, talvez até explorar outros locais para ampliar seus horizontes.

Então, por que, na era digital, quando quase todos os produtos e serviços passam por profundas mudanças, se não total reinvenção, nosso transporte do futuro ainda está enraizado na fabricação e venda de veículos, elétricos ou de outra forma? Porque os titãs da indústria não estão repensando o sistema maior em que estes veículos funcionam? Quando tentamos reinventar a indústria automobilística, isso não deveria fazer parte da equação?
Dan Sturges, acha que sim. “Há um papel para as automobilísticas, se tirarem o foco de fazer carros e começarem a pensar em capacitar as pessoas a se deslocarem”.
Sturges tem muito a ensinar sobre mobilidade, um assunto sobre o qual ele é extremo conhecedor e apaixonado. Antigo designer de carros para a General Motors, Sturges agora se concentra no desenvolvimento de sistemas de transporte que melhorem a comunidade – como unir uma gama de veículos pessoais ao transporte público, enquanto utiliza a última palavra em telecomunicações digitais, para criar sistemas de mobilidade integrada e eficiente. Como empresário, Dan encabeçou os esforços para o primeiro “veículo elétrico de bairro” (NEV) produzido em massa, o GEM, que agora pertence à Chrysler. Atualmente, Sturges é o visionário por trás da Intrago, uma empresa que faz “opções de transporte de tamanho adequado para pessoas se deslocarem em ambientes restritos”.

No mundo Sturge, toda a discussão em torno de veículos de combustíveis alternativos – desde as grandes montadoras ou qualquer das dezenas de iniciantes, de Apterra a Zenn – é necessária, mas não suficiente, principalmente se as cidades forem muito congestionadas para que esses veículos se locomovam. Essa ineficiência já é evidente, diz ele. “Aqui em Denver, temos uma ocupação média de 1,1 pessoas por veículo. Isso representa uma ocupação media de 20%. Uma companhia aérea não consegue se manter uma semana em atividade com uma ocupação de 20%”. No entanto, diz Sturges, nossa conversa sobre transporte ambientalmente responsável aborda simplesmente transfere toda essa ineficiência para veículos elétricos. O resultado é um monte de energia desperdiçada para movimentar todos esses assentos vazios.

Além disso, diz ele, estudos mostram que em algumas cidades, quase 40% dos veículos nas ruas estão rodando em busca de estacionamento. Simplesmente mudar para eletricidade, mesmo de fontes renováveis, para alimentar todos esses veículos subutilizados rodando em busca de um lugar para estacionar não vai nos levar muito longe em nossas metas climáticas e energéticas.

Então, precisamos não só de novos tipos de veículos, mas novos tipos de sistemas de transporte.

Já existem alguns sistemas. Há o Zipcar, City Car Share, I-Go, e outras formas de compartilhamento de carros e serviços de micro-aluguel, que oferecem alternativas ao uso do automóvel. Em Paris, há o Véllib, um sistema de aluguel com 20.000 bicicletas e 1.500 estações automatizadas – aproximadamente uma a cada 300 metros em todo o centro da cidade - que oferece aos membros aluguel de bikes a baixos custos (a primeira meia hora é gratuita), que podem ser devolvidas em qualquer estação. Em Ulm, na Alemanha, a Daimler lançou o Car2Go, um sistema semelhante que utiliza pequenos NEVs.

No Brasil, algumas iniciativas tomam corpo, ainda que timidamente. O Metrô de São Paulo conta com bicicletários, que disponibilizam bikes para aluguel a baixos custos, para os motoristas que decidirem estacionar nas estações e continuar o trajeto de maneira mais ecológica. A Porto Seguro também possui um sistema semelhante de empréstimo para seus assegurados, o UseBike. Um projeto do Agenda Sustentável, o Carona Sustentável também promete ajudar a resolver o grave problema da mobilidade, em São Paulo.

Vélib, Car2Go e os serviços de compartilhamento de carros são partes de um sistema maior que Sturges prevê. “Depois que você começa a ver o problema do congestionamento, então pode ter uma discussão de como podemos reinventar ou repensar a forma com que nos movemos. E aí se torna realmente interessante. Esta revolução digital – que nos permite partilhar carros e que nossos iPhones se transformem em ferramentas – é um novo mundo realmente excitante, onde uma rede tridimensional se desdobra perante nós. ”

Nessa rede tridimensional, você pode não possuir um veículo, mas ter acesso on-demand a qualquer estilo e tamanho de que precise – desde um pequeno NEV para uma passada rápida no supermercado, uma minivan para as férias com família, ou um clássico sedan para uma reunião com cliente, um conversível para um belo dia, até uma pick-up robusta para uma viagem longa. Os carros podem ser entregues a você ou estar disponíveis numa proximidade razoável do local que precisa. Os preços podem ser ajustados conforme o tempo e a comodidade: se você precisa de um veículo entregue à sua porta, em 30 minutos, você pagará uma taxa mais elevada do que se estiver mais flexível sobre onde e quando receberá esse veículo. Claro, tudo isso tão simplesmente como tocar um ícone no seu smartphone, digitar um sms ou fazer uma ligação.

E não são apenas os automóveis. No “futuro de transporte multimodal inteligente”, como Sturges chama, há um leque diversificado de opções de transporte. “Você transita de um modelo para o outro”, diz ele. “O futuro viajante urbano que vemos está mais para Tarzan, balançando de cipó em cipó”. Você já faz isso quando viaja de avião: dirige ou vai de transporte público para o aeroporto, voa para outro aeroporto e depois “salta” para qualquer que seja o meio de transporte adequado e acessível para levá-lo onde está indo. No mundo “Tarzan” de Sturges, teremos de fazer isto localmente, também. O resultado: chegaremos com menos desgaste de nós mesmos e do planeta, e talvez mais rápido, também.

O caso é: isso faz sentido em termos econômicos. Segundo a AAA (Download - PDF), um carro médio típico custa cerca de US$ 23 por dia – todos os dias, 365 dias por ano - quando calculados o consumo de combustível, manutenção, pneus, seguros, licenciamento, registro, amortização, impostos e encargos. Nesse ritmo, a sua básica garagem com dois carros consome R$ 30.525 por ano. Cortar isso pela metade, possuindo apenas um veículo, ainda pode deixar mais do que o suficiente para pagar todas as partilhas de veículo e serviços de mobilidade - mesmo táxi – de que precisa.

Evidentemente, há uma mudança cultural necessária que tudo isso aconteça. Quanto vai demorar até que os consumidores desistam de um de seus carros familiares? Possuir menos automóveis poderia tornar-se um símbolo de status? Poderemos chegar a um ponto em que não possuir qualquer carro seria o maior dos luxos? Esses desafios culturais parecem quase tão grandes como os tecnológicos.
E os grandes – Generals Motors, Chryslers & Cia – conseguiriam trabalhar neste novo mundo de serviços de transporte, ou será que seu foco na venda de veículos os levaria a tornarem-se dinossauros, mesmo que sobrevivessem? Perguntamos ao Sturges se os Três Grandes seriam realmente capazes de mudar o curso rumo a esta nova direção. “Há muito talento nessas empresas”, ele respondeu. “Eu não acho que você precisa de um novo navio. Você tem todo o tipo de recursos de engenharia e pessoas realmente brilhantes. Mas elas precisaram tirar o foco da venda de veículos, e focar mais em capacitar as pessoas a se deslocarem. Eles precisam esquecer a idéia de que as pessoas precisam de um carro para ir a todo o lugar e fazer tudo. Mas não creio que tenha que jogar tudo fora. Só precisa ser imaginativo”.