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VALE A PENA LER DE NOVO

quarta-feira, 7 de abril de 2010


O DIARISTA SARAMAGO


Por Franklin Jorge

José Saramago consigna os dias de sua vida em Cadernos de Lanzarote [Caminho, Lisboa, 1994], que Luis Carlos Guimarães ofereceu-me em dois volumes com uma bela dedicatórias de Luis Carlos Guimarães.

Caudatário de infinitas leituras e de uma longa e rica experiência humana, Saramago faz o que quer com as palavras — à serviço de idéias e reflexões — que põem em evidência o diarista, ainda mergulhado na circunstância, em busca da transcendência que vai muito além da urgência de dizer, nítida em seus diários, pois nele é forte o tom da voz do homem que conversa consigo mesmo, em linguagem elevada e culta, ajustada aos seus íntimos pensamentos.

Há, nele, como que invisível e indivisível feitiço, a vocação do homem rural para a teima, para não deixar nada sem resposta, num exercício de franqueza e inteligência que anima as letras portuguesas, ao longo dessas páginas, em sentenças nascidas da indignação e da altivez de um pensador capaz de perceber e analisar o fenômeno humano em confronto com a vida sujeita à banalidade dos políticos que só pensam em aproveitar dos seus mandatos em causa própria.

Desse Saramago não concordo, todavia, da simpatia que demonstra por grandes demagogos elevados à chefia de governos, nos quais entram de cambulhada os mais diversos e especiosos apetites, de ditadores como Fidel a civis como Lula, Luis Inácio Lula da Silva, uma forma de equivoco que se repete em escritores que se forçam a intervir politicamente, através de apoios que a decência arroga para si, como um dever de justiça – defender o pobre que venceu forças poderosas contra ricos naturalmente maus –, mesmo quando seria mais justo calar ou expressar apoio somente depois de uma longa e cuidadosa reflexão dos fatos.

Saramago, num lapso da lucidez, incensa Fidel e Lula com igual irresponsabilidade. Logo incensará Chavez e seu factótum boliviano…

Rebaixado por essa simpatia instintiva — em seu melhor aspecto alienada –, contudo, indefensável e periculosa para a saúde da civil, sempre à mercê de vontades excepcionais em constante e invisível confronto com a liberdade de expressão e o estado de direito.

Saramago, como observador privilegiado, registra tudo, participa de tudo, como uma grande personalidade das letras, em obsequiosa peregrinação pelo mundo, aplaudindo e admoestando, incentivando, decepcionando-nos em alguns momentos com suas opiniões, conquistando admirações e antipatias, do alto de sua cátedra nobelina.

Aprecio nessas anotações cheias de verve a presença dum ranço lusitano de tom pitoresco, presente no português que dominou a colônia, perdendo tempo com picuinhas provincianas. Como brigam e pelejam entre si os literatos portugueses do passado e do presente. Por dá-cá-aquela-palha estão sempre se engalfinhando e perdendo e as estribeiras.

E como se entregam ao turismo cultural, participando de todas as feiras de livros, de todos os colóquios, reuniões que sempre fomentam a animosidade e a discórdia presente na massa do sangue desses intelectuais que mal conseguem revigorar a prosa contemporânea mais aclamada em Portugal.

Saramago tem cultura, talento e estilo. É um criador que se renova a cada empreendimento literário. Como um daqueles antigos navegadores que se lançavam ao mar, sem salva-vivas, sem GPS e sem mecanismos de alta precisão, assim enfrenta Saramago o desafio da criação, sem lembra essa intemerata gente portuguesa que ficou desocupada e sem ter o que fazer, como diria Pessoa, após o ciclo de descobertas que deu aos lusitanos uma espécie de glória antes atribuída aos romanos dos quais em parte descende.

Escritor a quem apetece mandar, ocasionalmente, trinta páginas de vingativas respostas a um bilhete de três linhas, Saramago destila seu humor em sentenças de grande sutileza, como refinadissimo artífice que é, especialmente quando se volta para a própria análise de sua personalidade e de seus defeitos; que jamais esconde, nem mesmo em coisa pequena, como abusar de arrebiques da sinalética gramatical, ao reincidir no uso das reticências…

SERRA E A MÍDIA

quinta-feira, 11 de março de 2010

Nivaldo Cordeiro | Mídia sem Máscara

Pragmaticamente, os barões da mídia preferiram “apoiar” o poder a contestá-lo.
O recente evento realizado em São Paulo pelo Instituto Millenium (Fórum Democracia e Liberdade de Expressão), que reuniu os grandes barões da mídia brasileira (Rede Globo, Grupo Abril, Grupo Folha e Estadão) mostrou uma forte mudança de seu posicionamento junto ao governo do PT.

O evento deveria ser uma afirmação da liberdade de expressão, repelindo a ameaça explícita do governo Lula contra os meios de comunicação, conforme pudemos observar desde o acompanhamento da Confecom, mesmo de antes. A subserviência ao poder constituído pelos barões da mídia nacional ficou caracterizada pelo franqueamento do palanque para que Antonio Palocci, a pretexto de que encerrasse o evento, passasse sua mensagem aos formadores de opinião.

Essa modificação estratégica ficou explícita no editorial de ontem (5) da Folha de São Paulo (Serra ou não Serra). A raiz dessa mudança é o descortino de que a candidatura de José Serra está fazendo água, em face dos titubeios, indecisões e divisões no arco político liderado pelo PSDB.

Pragmaticamente, os barões da mídia preferiram “apoiar” o poder a contestá-lo. Esse gesto é uma repetição do gesto muitas vezes praticado por aqueles que deveriam resistir ao assalto dos revolucionários e não o fazem, seja por interesses mesquinhos, seja por cálculo errado, seja por pura covardia e seja, ainda, por alinhamento ideológico com a causa revolucionária.

O que vimos no evento citado foi a mais abjeta rendição de quem ainda teria os meios para resistir. Até as pedras sabem que o eventual governo da Dilma será a radicalização do programa do PT, em busca do totalitarismo.

A convenção do PT, que homologou a candidatura, e o programa de governo da candidata não esconderam as más intenções. O PT usará os últimos meses da administração de Lula para acumular forças sem espantar a lebre, embora muitas de suas medidas radicais já estejam em processo de implantação.

O pano de fundo desse processo é a agonia do PSDB, do projeto da social-democracia. Se Serra for candidato, hipótese mais provável, será traído em Minas, pois Aécio deverá ter dois palanques, como da outra vez, e no final somará com o candidato vencedor. Se for Aécio o candidato, hipótese improvável, em São Paulo, mesmo se os caciques apoiarem, terá votos insuficientes para vencer o pleito.

Com a grande mídia sob o cabresto do PT a coisa toda ficará ainda mais periclitante. A derrota do PSDB está traçada com muita antecipação. O pleito figurará assim como uma mera homologação da candidata oficial.

O desdobramento histórico desses acontecimentos será da maior gravidade. Tanto maior se o PT conseguir derrotar o PSDB na corrida pelo governo do Estado de São Paulo. A lição da história é que sempre a social-democracia serve de abre-alas para os socialistas radicais.

Estamos a ver no Brasil o mesmo filme. A menos que tenhamos alguma reviravolta sensacional - e improvável - Dilma Rousseff receberá a faixa de primeira presidenta da República. O desastre para o Brasil está traçado como um encontro com o destino.

Quem viver verá.