Transcrito do NOVO JORNAL
Por Franklin Jorge, editor de Opinião, Cultura e Midway
Blogs e jornais impressos registraram o inusitado desabafo da prefeita Micarla de Sousa, decepcionada porque a empresa privada não mostrou interesse em bancar o carnaval natalense.
Disse a simplória alcaidessa em estado de atordoamento:
“Não apareceu um filho de Deus para nos ajudar”.
Repito, leitor, o que disse a prefeita de Natal e o faço porque, como você que lê estas mal traçadas linhas, também não acreditei no que lia:
“Não apareceu um filho de Deus para nos ajudar”.
Isto mesmo, meu caro. Foi o que disse a despreparada prefeita dessa infeliz cidade, onde todos têm o rei na barriga, e não uma comadre qualquer, dessas que botam as mãos nas cadeiras, batem o tamanco no chão duro e reclamam da falta de solidariedade de amigos e vizinhos, incapazes de se comoverem com tais desventuras.
Confesso que ao ler estas palavras o meu primeiro impulso foi de incredulidade, por saber que as mesmas haviam saído da boca de alguém que tem sob o seu comando uma cidade de quase 1 milhão de habitantes, a capital do estado do Rio Grande do Norte, que já teve a sorte de ser administrada por gente do naipe de um Omar O´Grady, que promoveu a primeira grande reforma urbana da cidade e, mais recentemente, por Carlos Eduardo, que, pensando no futuro e no presente, empreendeu o ordenamento legal da cidade, cujo desmanche está sendo feito paulatinamente pela própria Micarla, como bem o prova o que o que tem sido tramado com reconhecida contumácia contra Ponta Negra, que terá a sua paisagem desfigurada pela construção de espigões, numa ação mercenária que atropelou inclusive o Ministério Público em sua defesa do patrimônio.
Mas, voltemos às palavras de Comadre Micarla, que certamente entrará para a história por seu despreparo, índole rancorosa e alienação a toda prova.
“Não apareceu um filho de Deus para nos ajudar”…
Como disse, ao lê-las – essas palavras -, minha primeira reação foi de incredulidade, mas devo acrescentar que em seguida, apesar de todo o meu estarrecimento, tive um frouxo de riso que quase me tira o fôlego. Ri, sim (mea culpa, mea culpa, mea culpa…), embora devesse ter chorado como qualquer natalense decente ao ver a nossa pobre cidade entregue nas mãos dessa despreparada e simplória criatura que, por um desses inexplicáveis golpes de sorte,
ascendeu a uma posição que estava muito além da sua competência e merecimento. Mas, diz-se que os deuses gostam às vezes de brincar com os humanos e lhes pregam tais peças, apenas para se divertirem…
“Não apareceu nenhum filho de
Deus para nos ajudar”.
Ora, tais palavras são como que um caldo frio despejado sobre as migalhas que restavam da expectativa criada com a eleição da filha de Carlos Alberto, por algum tempo, vista e encarada como uma expressão nova capaz de escrever um capitulo mais promissor da nossa história velha de quatro séculos. Foram – tais palavras – como que um toque de finados sobre este governo sem rumo e sem diretriz, que não consegue sequer recolher o lixo urbano e que tem produzido uma cagada atrás da outra, como diria um dos seus mais notórios representantes.
Um governo populista e demagógico, que quer entregar a solução dos seus problemas - dos problemas que decorrem da alienação e da falta de planejamento - à empresa privada, que já vive escorchada por inúmeros impostos e taxas e não pode ou não tem interesse em bancar o carnaval, uma festa que faz parte de um calendário fixo.
Atentem para este detalhe: se o carnaval faz parte de um calendário fixo, ou seja, que se repete todos os anos mais ou menos no mesmo período, Micarla não pode sequer alegar em sua defesa que foi surpreendida por esse evento, ao anunciar três semanas antes do carnaval a situação de penúria dos cofres da prefeitura, que, por isso, não podia dispor de 3 milhões para o evento, vendo-se assim na contingencia de recorrer ao empresariado de pires na mão. O que faltou, na verdade, repito, foi planejamento e competência, pois do contrário a prefeitura não estaria agora implorando patrocínio aos empresários que já investem, por exemplo, em cultura através das leis de incentivo.
“Não apareceu nenhum filho de Deus para nos ajudar”.
Mais que um desabafo, uma assinatura desse governo intelectual e moralmente indigente, que já nos deu, além da simplória filha de Carlos Alberto e Míriam, um supersecretário – Carlos Augusto Viveiros - que entende de bicicletas e que prefere os tubarões às cândidas e nobres tainhas e, além desse arrogante de nome sujo, um presidente de instituição cultural que se jacta de “cagar e andar” para a opinião pública.
Queres conhecer o vilão…
Durante anos ouvi o nome do engenheiro Kalasans Bezerra relacionado à defesa do meio ambiente. Devo dizer que, nas ocasiões em que o ouvi ou li declarações suas, meu sexto sentido me advertia para dar um desconto à sinceridade da sua militância; à militância de alguém, por assim dizer, surgido do nada, impulsionado com fé de noviço na defesa de uma causa simpática a todos, ou, pelo menos, à maioria. Em todo caso, lamento confessar aqui, Kalasans sempre me pareceu um mero falastrão e, por isso, nunca fui com o seu ecologismo de plantão.
Infelizmente não estava enganado. O cara é um arrivista que se deu bem sob as saias de Micarla, defendendo medidas que ferem princípios antes aguerridamente defendidos, ao tempo em que Kalasans Bezerra era – lembram-se? - coordenador do Movimento Pró-Pitimbu e merecia a atenção e a consideração dos natalenses. Em verdade, estávamos completamente mal informados sobre a verdadeira natureza de seus interesses. Sua bandeira era apenas uma fachada que se apresenta, atualmente, aos olhos de todos, inteiramente puída e esmolambada. Não admira, pois, que o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves o tenha chamado de “corretor” e não de ambientalista, como faria uma pessoa mais desinformada.
Secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (SEMURB), Kalasans defende agora o indefensável, contrariando princípios que em nossa inadvertencia acreditamos nascidos de uma sincera dedicação à defesa de Natal. Agora, em vez de defender o meio ambiente, ele o agride de maneira descarada, referendando a construção de um espigão de 19 andares em Ponta Negra, o que tem contrariado os moradores do bairro e as pessoas de bom senso. É só começo, podem crer, de uma devastação urbana sem precedentes na história da cidade.
É interessante notar que ele tomou essa decisão sem discuti-la com a sociedade e, para isso, escolheu o momento certo: quando a Câmara Municipal e o Ministério Público Estadual estavam em recesso de ano novo. Ora, nada mais conveniente e, ao mesmo tempo, suspeitoso. Além do mais, Kalasans se aproveita de um erro de Carlos Eduardo para justificar a construção de espigões em Ponta Negra, quando, se estivesse vem intencionado, lutaria para corrigi-lo e fechar essa brecha deixada pelo ex-prefeito de Natal.
Diz um velho ditado quinhentista que, se queres conhecer o vilão, dê-lhe o poder na mão… E, aí, teremos – no caso em questão - um feroz corretor devorando impiedosamente o direito que todos temos à paisagem e ao verde. E, de cambulhada, estraçalhando a boa fé daqueles que acreditaram, algum dia, no caolho secretário de Micarla.